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terça-feira, 17 de novembro de 2009

O mal de Procusto


A terrível doença dos que não suportam as diferenças

Procusto, segundo a mitologia grega, era um famoso salteador que agia entre Mégara e Atenas. Atacava os viajantes, despojava-os de seus bens e submetia-os a cruel suplício. Forçava-os a se deitarem em um leito que nunca se ajustava ao seu tamanho. Cortava as pernas dos que excediam a medida e, por meio de cordas, esticava os que não a atingiam. Ficou conhecido como "aquele que estende". Essa faceta trágica por trás de uma "hospitalidade" ilusória ainda é encontrada em muita gente na conturbada atualidade.

O mal de Procusto é encontrado nos esforços para anular todas as diferenças. É preciso entender que existem diferenças que podem e precisam ser, equilibradamente, celebradas. Infelizmente, grande parte da igreja hodierna carrega neuroses em relação ao diferente. É comum encontrarmos pessoas estigmatizadas por suas diferenças: mães solteiras, viúvas, pobres, ou até mesmo, as diferenças geradas pelas guerras das denominações, o conflito imposto pelos adeptos de "novas" visões, das teologias asfixiantes do legalismo. Diferenças que geraram traumas, marcas profundas, feridas na alma.

A base para a celebração das diferenças está no respeito, na ética que eleva o outro e o recebe como amigo na alma. Existem diferenças fundamentais que precisam ser combatidas por causa do mal que trazem, como por exemplo, a mentalidade racista, preconceituosa, os desvios de caráter que podem comprometer a saúde da alma. Diferenças letais. Não são essas diferenças doentias que quero abordar, mas as sadias, aquelas que nos conferem singularidade, e por isso mesmo estão sendo novamente roubadas pelo mal de Procusto.

Procusto hoje é o radicalismo do "é assim que é, e pronto!" É a tendência de "esticar e cortar" o que destoa do meu modo de ver a vida até que o indivíduo tenha a cara que eu quero. Quando a igreja age assim, adultera o sentido bíblico do Cristo - ele celebrava as diferenças! Basta olhar o grupo de discípulos que ele escolhe: de trabalhadores a cobrador de impostos, gente das diferenças. Gente escolhida não por ser uma eterna igualdade da massa informe, mas por ter a capacidade de ser-quem-é.

Na atualidade, há uma gama enorme de pessoas marcadas, gente com uma história de dor pra contar. Essas pessoas foram à igreja em busca de abrigo e descanso para a alma, mas encontraram a terrível cama de ferro do legalismo e o Procusto das teologias ditatoriais. Deus não instituiu uma máfia eclesiástica, Ele instituiu uma igreja - gente simples celebrando as diferenças em amor.

A igreja é feita das diferenças. Famílias diferentes, de lugares diferentes, com problemas diferentes - ninguém é igual. O que precisamos aprender com Cristo - o Mestre da sociabilidade - é a virtude de enxergar o outro como irmão e ajudá-lo a crescer independentemente de sua formação, posição social (o lixo das diferenças de classe) ou a cor da pele. A igreja pode celebrar as diferenças porque Cristo as celebra.

Procusto, segundo a mitologia, foi morto por Teseu, que infligiu-lhe o mesmo martírio que ele infligia às pessoas. O que aprendemos aqui é que a "Lei da Semeadura" (o que plantarmos, colheremos) também se aplica a esse comportamento. Aqueles que atropelam as diferenças serão atropelados por elas mais tarde.

Que Deus nos ajude a celebrar diferenças, a "suportar uns aos outros em amor" (Ef.4.2), e crescer em unidade, intimidade e carisma. Somente assim poderemos ganhar as nações para o abraço de Cristo.
Até mais...

Alan Brizotti

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O reino encantado da profetolândia


Um lugar onde os profetas levita(m)

Existe um lugar onde o surto profético é completamente liberado. Basta dois crentes se encontrarem e pronto: bate um arrepio, um clima de mistério e... lá vem profetada! A configuração é simples: uma lágrima ungida aqui, um lenço suado pela divindade manifesta. Tudo anda de acordo com a sensação do momento.

Na profetolândia tudo é profético. Até as roupas são escolhidas de acordo com a autoridade necessária na ocasião (principalmente quando são Daslu ou Armani). Chifres e óleos são abundantes. É tanto óleo que as pessoas parecem salgadinhos ungidos na feira da religiosidade tupiniquim.

A autoridade maior é o apóstolo (visto que toda a população é profeta). Só há um ministério: o da fazenda! Aqui renomeado: Ministério da Prosperidade. A bandeira tem um cifrão entrelaçado a um cajado, um shofar, a sombra de uma cruz e um balde de azeite de Israel. Na profetolândia não existe passado, pois os profetolandenses apenas determinam o futuro de conquistas!

Tudo é azul na profetolândia, visto que preto é suspeitíssimo. A televisão local chama-se "TV Sinal", porque nós acreditamos em milagres! A programação é bem simples: milagres de manhã, de tarde e de noite. De madrugada, milagres contra a insônia e o marido que ronca. Os intervalos comerciais vendem de tudo: Bíblias para todos os gostos, protetor solar "Debaixo do sol", arca da aliança em miniatura (com um shofarzinho dentro), candelabro comestível, e por aí vai...

Na profetolândia deu muito trabalho para nomear o local onde se jogaria o lixo. Alguns sugeriram "inferno", mas não deu certo, pois de vez em quando, alguns profetolandenses gostam de "saquear o inferno", aí já viu, não ia prestar. Então, depois de longas campanhas, nomearam o tal local (devidamente fora de seus limites sagrados) como "maldição". Daí em diante, toda maldição lançada pelos profetolandenses tem endereço certo: lixo!

Se você quiser conhecer essa terra que mana "leite e sabor de mel", consulte seu agente de viagem espiritual, numa neopentecostal mais próxima.

Ah, não posso entrar na profetolândia. Minha conta bancária (ops!, passaporte) não permite.

Até mais...
Alan Brizotti
Fonte: Blog do Prof. Alan Brizotti

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Teologia da indecência


É indecente quando pastores aumentam gritantemente seu patrimônio enquanto a maioria dos membros da igreja faz verdadeiros malabarismos financeiros para conseguir pagar o dízimo e o aluguel. Ainda mais indecente é saber que esses membros recebem doses monstruosas de ilusão, via teologia da prosperidade, para que se acostumem nessa perversa seletividade arbitrária nojenta. Afinal, se não existir o miserável, quem vai alimentar a indústria da prosperidade? E, se não existir o pastor magnata, quem vai "garantir" os resultados? Lógicas indecentes.

É indecente quando a membresia honesta das igrejas fecha os olhos e tenta se iludir chamando tudo isso de "fim dos tempos". Tudo o que os indecentes mais querem é uma escatologia do desespero, da fuga. Enquanto isso, paraísos fiscais substituem o céu por aqui. É indecente saber que não existe pecado para os que têm credencial.

É indecente cantar tanta coisa ridícula e ainda culpar o Espírito Santo pela tal inspiração (ou seria alucinação?). É indecente pagar somas astronômicas a cantores e pregadores que fazem da fé a senha de sua conta bancária obesa. A bandidagem eclesiástica é mesmo milagrosa: faz sumir seu suado dinheirinho e ainda deixa você sonhando... Não me lembro onde li essa frase, mas serve: "não desista do seu sonho, apenas vá a outra padaria". O pão que a igreja vende envelheceu...

É indecente a passividade silenciosa do povo. Por mais antigo que seja o que vou dizer, ainda precisa ser dito: o povo tem o poder! Só esquece disso. Diga não aos indecentes! Diga não a essa pulpitocracia canalha, a essa sacanagem divina, a essa pilantragem sagrada, a essa malandragem eclesiástica. Envie esse post pra todo mundo. A net é uma arma poderosa!

Não compre CD'S e DVD'S de cantores e pregadores mercenários. Não os convide para seus congressos. Há tantos cantores e pregadores honestos e abençoados "guardados" no anonimato. Não aceite tudo que os pastores dizem. Questione. Duvide. Exija explicações bíblicas genuínas. Cuidado: ano que vem é ano de eleição. Não venda seu voto! Ao invés de gastar seu dinheiro para ir aos carnavais evangélicos bizarros, contribua com orfanatos, creches, asilos, ong's, casas de recuperação, hospitais.

A teologia da indecência adora bodes expiatórios, portanto, se você quiser descarregar sua raiva em mim, vá em frente! Pode me chamar de herege (é uma honra, pois é maravilhoso ser contra essa indecência toda). Pode me chamar de rebelde (inclusive, tenho um pôster do Che bem à minha frente). Ah, se quiser pode até me mandar pro inferno, pois nesses casos, o inferno é o lugar para onde os covardes mandam os lúcidos.

Até mais...

Alan Brizotti
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